segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Espiritualidade cristã e vida de oração na Igreja

Espiritualidade cristã e vida de oração na Igreja

            O fundamento da fé cristã é Cristo. Esta afirmação não é suficiente, más até perigosa. Dizer que o fundamento da fé cristã é somente Cristo é incorrer no sério risco de se cair, se é que isso já não aconteceu, em um Cristomonismo, ou mais ainda, em um monoteísmo a-trinitário. Isso traz graves e gigantescas conseqüências para a vida da Igreja. O fundamento da fé cristã é a Trindade, ainda que muitos cristãos, embora professando uma fé no Deus Uno e Trino, a vivam, no cotidiano, de modo a-trinitário. Isso se deve a uma teologia e prática pastoral, ocidental, que ao contrário da oriental, se estruturou de modo monoteísta, impossibilitando uma mentalidade trinitária.
            Frente a uma mentalidade a-trinitária tão evidente no Ocidente, a Igreja sofre, nos dias de hoje com um problema sério. De um lado encontramos aqueles que vivem uma espiritualidade do Pentecostes, mas dissociado da Paixão, aqui se prima pelo Espírito Santo; do outro, aqueles que reclamam uma espiritualidade do Cristo da cruz, mas também destituída da dimensão trinitária. Trata-se de uma questão bastante delicada e pouco ou nada cristã, pois se concebe de modo separado o Absolutamente Inseparável.
            O grande risco que incorrem aqueles que encontram no Pentecostes o fundamento exclusivo de sua espiritualidade está no fato de se criar uma cultura da emoção. O sentimentalismo evidente na busca obsessiva de gratificação imediata, na ausência de sofrimento, no “transe” presente nos movimentos neo-pentecostais, tudo isso é expressão dessa cultura. Por outro lado não estão em posição mais verdadeiramente cristã aqueles que encontram no Cristo do Calvário, o fundamento exclusivo de sua espiritualidade. Trata-se também de uma atitude a-trinitária.
            A oração, sustentáculo e expressão de uma autêntica espiritualidade, torna-se um ato relativo, mais fruto das paixões pessoais de cada um, que de uma verdadeira vida íntima com Deus. A oração não deve ser resultado de uma experiência intimista, nem somente de uma análise sociológica do Mistério Pascal, o que quase sempre ocorre em nome de uma pseudo-espiritualidade encarnada, que de encarnada não tem nada.
            A oração genuinamente cristã deve encontrar no Deus Uno e Trino seu fundamento, deve ser uma autêntica expressão de vivência íntima com o mistério trinitário, em que o Pai que se revela plenamente no Filho e envia o Espírito sobre sua Igreja. O Deus que se revela na agonia do Filho no Horto não é outro que o Deus que encoraja os apóstolos no Pentecostes em formas de línguas de fogo. O cristão deve ter isso claro se quiser que sua oração seja verdadeiramente fecunda e produza frutos na sua própria vida e na vida da comunidade, pois como lembra Von Balthasar: “quem não quer ouvir primeiro a Deus, nada tem a dizer ao mundo”.  
            Na Igreja, muitas orações não passam de tagarelices.  Isso é, infelizmente, uma realidade que perpassa também muitos seminaristas, religiosos e padres. “Quantas orações em nossa vida diária não são rezadas, mas tão somente faladas”, lembra o teólogo alemão Karl Rahner. Muitas vezes o coração e o espírito se acham longe, e como diz Rahner: “em vez de prece de nosso coração ao coração de Deus, recitamos mera fórmula, na qual cuidamos apenas em pronunciá-las, sem pensar nAquele a quem é dirigida”. É preciso ter cuidado, pois o cotidiano pode banalizar a oração diária, torná-la superficial, feita somente com os lábios - e às pressas - para se voltar logo a ocupações mais agradáveis.   
Neste exato momento, se perguntarmos aos seminaristas que nesta manhã rezaram três salmos na oração das Laudes, qual o conteúdo do segundo salmo, muitos não saberão dizer. Alguns certamente se justificarão dizendo que o que vale é o sacrifício do acordar cedo; outros, que a vida já é uma oração. Para ambos, a oração se resume a momentos específicos, justificados de acordo com os interesses de cada um. Frente a esse contexto, como manter uma espiritualidade verdadeiramente cristã? Lembra o santo padre que a “oração não é algo acessório ou opcional, mas uma questão de vida ou morte”.
É premente a necessidade de se voltar ao Deus Uno e Trino e se deixar inabitar por esse Mistério; buscar o auxílio dos místicos da Igreja e aprender a rezar a Palavra de Deus. Somente assim é possível viver uma espiritualidade genuinamente encarnada e rezar, não alguns minutos por dia, ou limitar a oração às raras horas de arroubo e emoção, mas tornar a vida diária uma oração sem palavras. Isso requer exercício constante, pois como diz Rahner: “Aprender a orar! È uma graça!, mas é também efeito da boa vontade, é uma arte, que deve ser exercitada e provada”.

Frei Sílvio de Almeida OFM Cap




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