A Igreja Católica frente à crise da Fé
A falta de fé tem sido uma das características própria da modernidade. Embora o homem seja um ser de absoluta abertura transcendental, como afirma o grande teólogo alemão Karl Rahner, ou um ser essencialmente religioso, como defende o grande historiador romeno, Mircea Eliade, na modernidade o homem perece desconhecer ou ignorar seu próprio ser.
A morte de Deus anunciada pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche, significou para a modernidade, a morte da metafísica. Ora, isso não deixou de ser um anúncio do fim do próprio homem. O fundamento último de uma realidade física não está na sua aparência imediata, mas para além de si mesma. Matar a metafísica é colocar-se frente a impossibilidade de sustentar qualquer discurso que se quer autêntico e destituir a existência de seu fundamento último. Diante disso o que restará? O caos, no qual a vida já não encontra sentido. Eis a realidade na qual está mergulhado o homem moderno. Trata-se, portanto, de uma verdadeira crise existencial.
Sem o Principio Fundamental, reduzindo a própria existência a somente um está-ai em meios às outras coisas, mas sem se dá conta disso, o homem moderno é semelhante a um náufrago que em meio a ondas violentas e fortes tempestades tenta se agarrar a qualquer coisa na ilusória esperança de se salvar. Alguns ainda conseguem segurar em algum pedaço dos destroços do navio e com isso se manter algum tempo vivo. Todavia, entre o seu sustentáculo, no qual segura, e o chão há um espaço vazio totalmente inseguro, que pode levar da simples dúvida ao desespero, frente ao qual, qualquer oferta de sentido, ainda que barata, é não somente bem vinda, mas desejada e buscada.
A modernidade, ao contrário do passado, não pensa a realidade a partir da fé e das realidades metafísicas, mas somente a partir do meramente imediato, portanto, da crise da fé. A busca por respostas imediatas, pela superação do sofrimento, pela ausência da angústia, reflete bem essa realidade de crise, na qual a Igreja anuncia uma verdade que a muitos é, aparentemente aceita, mas não é levada a sério.
Nessa situação está o homem moderno, seja aquele que nega a existência de Deus abertamente, seja aquele que, professa a fé, mas não tem certeza daquilo que professa e que por isso está sempre buscando alternativas. Aqui estão muitos cristãos que vão à missa semanal ou diariamente. A Igreja Católica se encontra frente a essa situação, na qual estão mergulhados não somente os simples cristãos de tradição, mas muitos de seus membros ordenados. O sacerdote é um homem de sua época, ainda que seja versado nas coisas de Deus e tenha feito teologia.
Ao contrário do passado, em que a fé era o pressuposto fundamental para fazer teologia, em que o seminarista realizava seus estudos com uma fé sólida e praticamente sem problema, hoje o seminarista sofre de uma verdadeira falta de fé. Sua fé é, verdadeiramente, atacada e ameaçada em todas as dimensões de sua existência concreta. Essa foi uma constatação de Karl Rahner na Alemanha da década de setenta e que parece não ser uma realidade tão alheia à nossa. ‘O seminarista de hoje tem uma necessidade muito mais premente e mais urgente de justificar sua própria fé que o seminarista das gerações anteriores’.
O estudo da sagrada teologia é, quando levado a sério, o lugar propício para se descobrir as razões da própria fé. Ora, isso requer seriedade nos estudos dessa ‘Sagrada Ciência’, seja por parte de quem a estuda, seja por parte de quem a oferece. Uma teologia meramente especulativa não garante ou não assegura, ainda que estudada com afinco, essas razões, uma vez que se trata de uma questão existencial.
Para Karl Rahner, o padre tem que ser orante, se quiser ser crente e mensageiro da fé; ‘padres que rezam, que suportam rezando a treva da vida, mesmo se a sua prece for participação na agonia do horto ou na súplica do abandono por Deus na cruz’. Do contrário, se poderá ser até bons administradores de paróquias, bons organizadores de comunidades, mas não um autêntico testemunho de fé em meio a um mundo descrente.
O anúncio da Igreja será eficaz se aquele que anuncia acredita verdadeiramente na verdade anunciada; do contrário, será apenas mais um discurso em meio a tantos falatórios, próprio de um mundo, no qual o homem não acredita mais nem em si mesmo, pois acabou com o fundamento último de sua própria existência, Deus. Mas é nesse contexto que o cristão é chamado a ser aquilo que é: homem de verdadeira fé.
Frei Sílvio de Almeida OFM Cap
Email: fsilap@hotmail.com




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